PARTE FINAL - HISTÓRIA DA AVALIAÇÃO FÍSICA

Agora sim... Chegamos na melhor parte desta coletânea da História da Educação física.

Fiz todo este arrodeio por que não tinha como falar da avaliação física se não falasse dos primordios da educação física e como tudo foi se conectando.Visões esportivas, estudos do corpo humano e analises de desempenho (quer seja esportivo , quer seja para a luta). 

A HISTÓRIA DA AVALIAÇÃO FÍSICA

Não tem como falar da história da avaliação física sem mostrar os conceitos atuais  sobre o mesmo. 

Medir, avaliar, analisar e testar estão presentes em nosso cotidiano de forma automática, durante toda a vida do homem indagações se fazem presentes todos os dias, como que é o mais bonito, o mais alto ou o mais forte, principalmente em duas fases de formação da vida, a infância e a adolescência (Fernandes Filho, 2003)

O teste é definido como “uma pergunta específica utilizada para aferir conhecimento ou habilidade de uma pessoa” (Rash, 1971 apud Fernandes Filho, 2003, p. 25). Ou ainda, de acordo com Tritschler “é um instrumento ou procedimento que traz à tona uma resposta observável a fim de fornecer informação sobre um atributo específico de uma ou mais pessoas” (Tritschler, 2003, p. 4).

Ao pensarmos a área do esporte e do exercício, um teste abrange muito mais do que responder questões em um papel, em nossa área os testes avaliam aptidão física, capacidades esportivas, fadiga pela prática de esporte, além de medir as lesões causadas pelo esporte. O avaliador tem, nos testes, o objetivo de considera respostas físicas em um determinado período de tempo, apalpam diversas partes do corpo humano. Os testes necessitam também de equipamentos específicos para a sua realização, tais como: o adipômetro, o paquímetro ósseo. Além de ferramentas de auxílio, como a cones, trenas e podem ser realizados em diversos lugares, como salas de avaliação, ginásios poliesportivos e pista de atletismo (Tritschler, 2003).

Outro conceito muito utilizado é o de medida, esta por sua vez, tem como definição para Rash (1971) ser a “quantificação da resposta do teste” (RASH, 1971 apud Fernandes Filho, 2003, p. 25). Pode ser vista ainda como “o processo de se determinarem sistematicamente valores numéricos para um atributo de interesse” (Tritschler, 2003, p. 9)

Utiliza-se avaliação “para expressar nosso entendimento de que o atributo estudado é indefinível demais para ser medido objetivamente” (Tritschler, 2003, p. 9). De acordo Rash (1971) a avaliação é “um processo que nos permite, objetiva ou subjetivamente, comparar créditos e determinar a evolução de uma pessoa ou grupo numa linha de tempo, seus avanços e retrocessos” (Rash, 1971 apud Fernandes Filho, 2003, p. 26).

A análise, para alguns autores é vista como interpretação, é definida como: o processo de julgamento dos resultados de uma medida e/ou avaliação. São interpretados os dados tanto qualitativos como quantitativos pela comparação deles com diretrizes ou padrões, a fim de se fazerem julgamentos sobre algum aspecto da pessoa e/ou de se tomarem decisões apropriadas sobre o curso de uma ação (Tritschler, 2003, p. 9).

Existem relatos milenares de curiosos e pensadores Chineses, Indianos, Gregos, entre outros, acerca da relação entre a prática de exercícios e diversas doenças, e que podem ser sintetizadas na afirmação atribuída a Hipócrates de que “... as partes corporais que são habitualmente utilizadas tendem a se fortalecer, enquanto aquelas menos usadas ficam mais fracas e predispostas a doenças”. 

A observação cuidadosa do ser humano, de suas atividades diárias e do ambiente em que vivia era a fonte principal do conhecimento - repassado de geração para geração principalmente por via oral ou em frágeis manuscritos. A própria evolução humana ocorreu, segundo BORTZ II (1985) em função de determinados fatores comportamentais, incluindo o padrão de atividades físicas que deu ao animal homem significativa vantagem sobre os demais. Outros fatores, segundo o autor, foram as ferramentas, os padrões alimentares, a agressividade, a postura ereta e o bipedismo, além das estratégias de reprodução. Assim, as atividades físicas características do animal que viria a ser o Homo sapiens permitiram que ele sobrevivesse e expandisse o ambiente habitável na pré-história, sobrepujando não apenas os concorrentes, mas também os obstáculos e barreiras do próprio ambiente natural.

Conforme apresentado anteriormente, o teste, a medida, a avaliação e a análise, mesmo que na forma de conhecimento popular, estiveram frequentes em nossa história. Como um processo de seleção natural, no período clássico da história humana os homens mais fortes estavam no topo da cadeia, vários relatos narram a história de Miron de Croton, que “treinava” com seu bezerro envolto em seu pescoço realizando aumento de carga progressivo, conforme seu animal ia crescendo e, que fazia assim uma avaliação de seu estado e seus ganhos de força.

A medida relacionada ao corpo esteve presente na história desde o antigo Egito, onde a unidade de medida da época era o dedo médio da mão; que assim um braço media oito dedos, uma perna dez dedos etc. Por sua vez, a medida corporal – a antropometria – é um fato histórico e social antigo.

Os gregos vivenciam a antropometria tanto na medicina, quanto nas artes. Para o pai da medicina Hipócrates, a antropometria dividia os indivíduos em dois tipos distintos de corpos: os tísicos e os apopléticos. Os primeiros eram vistos como aqueles que possuíam dimensões mais verticalizadas e, o segundo como corpos com dimensões mais horizontais. Ele acreditava que a boa simetria em ambas as dimensões estava diretamente ligada com a boa saúde e, os que não possuíam tal assimetria eram vistos como pessoas que tinham a saúde precária e possíveis doenças (Tritschler, 2003, p. 32).

A arte grega também se mostrava preocupada com tal simetria, tanto que consideravam o atleta como aquele que tinha o físico ideal, eles “concorriam” com os deuses para serem alvos de escultura, tanto que era tradição da época esculpirem os atletas vencedores das olimpíadas (Tritschler, 2003, p. 32).

Já na chamada Era da Ciência, foi a classe médica, no final do século XIX e início do século XX que começou a investigar e aplicar esses conhecimentos sobre “exercícios físicos” no tratamento de doenças e na recuperação de lesões ou após algum tempo de imobilização por doença ou cirurgia. Médicos ingleses em meados do Século XIX preocupavam-se, de forma pioneira, com a saúde e a longevidade dos remadores das Universidades de Oxford e Cambridge. Algumas décadas depois, foi criado o Método Pilates, inicialmente voltado à recuperação de soldados acamados, e que ressurgiu há poucos anos, remodelado e como atividade de condicionamento ou recuperação física utilizado por fisioterapeutas e profissionais de Educação Física de todo o mundo.

A Saúde Pública teve seu interesse despertado para a relação atividade física e saúde de forma mais acentuada em meados do século XX, com os estudos pioneiros de MORRIS, HEADY, RAFFEL, ROBERTS e PARKS (1953) associando as doenças cardiovasculares ao nível de atividade física no trabalho. 

Perto o início do século XX, o foco dos estudos em avaliação tiveram que passar novamente por transformações. Nessa época havia no mundo uma necessidade de se conhecer mais sobre a capacidade do coração e o papel dos vasos sanguíneos, como a avaliação da força foi estimulada pela criação do dinamômetro, a preocupação com a avaliação cardiovascular começou a ser pensada com a criação do ergógrafo pelo italiano Mosso (Tritschler, 2003; Fernandes Filho).

Foram pensados os primeiros estudos sobre a fadiga, à relação entre os esforços musculares e circulatórios atuando diretamente ligados com a Educação Física. No período da I Guerra Mundial, Schneider utilizou seu teste para mensurar a aptidão dos soldados (Fernandes Filho, 2003).

Com o intuito de apresentar um teste confiável e prático no campo da avaliação cardiovascular, Kenneth Cooper publicou seu livrou “Aerobics”, em 1968.
Atualmente o teste de Cooper apresenta diversas versões, além de que se foram pensados muitos testes ergométricos com aparelhagem moderna e, com isso os conceitos dos limiares anaeróbio e aeróbio e sua utilidade na prescrição da carga de trabalho.

No ano de 1907, Meylan, partindo dos princípios desenvolvidos por Sargent no fim do século passado, criou uma nova possibilidade no caminho das medidas e avaliação, os testes de habilidades motoras. A ideia de Meylan era escalonar as habilidades dos seus alunos para que pudessem participar de um programa supervisionado (Fernandes Filho, 2003).

Um dos maiores contribuintes para este novo campo das medidas e avaliação foi McCloy e David K. Brace. Em 1927, Brace desenvolveu uma sequência de testes de destreza motora, que é classificada como “o nível até o qual a pessoa desenvolveu suas capacidades inatas” (Tritschler, 2003, p. 39), que continha vinte feitos inusitados. Esses testes incluíam “saltar de um círculo formado quando alguém segura os dedos de um pé com a mão oposta” (Tritschler, 2003, p. 39).

Entretanto, tais teste foram revisados McCloy e, o novo programa de testes ficou conhecido como Iowa-Brace, que foi pensado para medir a educabilidade motora, que por sua vez é tida como “a capacidade com a qual aprende novas habilidades motoras” (Tritschler, 2003, p. 39). 

Nos anos 50 e 60, além do interesse da medicina nos fatores associados à crescente incidência de doenças cardíacas em países industrializados, havia na Educação Física um interesse particular na aptidão física relacionada ao desempenho motor, fosse para a competição esportiva ou a preparação militar de jovens. 

No final dos anos 60, a partir da proposta do Método Aeróbico (COOPER, 1968), e durante a década de 70, o foco foi fixado na aptidão cardiorrespiratória, como fator importante na prevenção da doença arterial coronariana (DAC). O Brasil acompanhou este movimento e o “Teste de Cooper” (parte integrante do Método Aeróbico de Cooper) se popularizou em nossas escolas e campos de treinamento. O “jogging” e a aptidão cardiorrespiratória ou resistência aeróbica dominaram o cenário da área que viria a ser de atividade física e saúde. 

A partir de 1980, um movimento liderado por pesquisadores da Educação Física nos Estados Unidos (e que logo se estendeu a outros países, inclusive o Brasil) propôs a mudança de ênfase da aptidão física voltada ao desempenho para a aptidão física relacionada à saúde (AFRS), com grande repercussão na Educação Física Escolar em todo o mundo (AAHPERD, 1980). A AFRS, nesta proposta, incluía as valências aptidão cardiorrespiratória, força e resistência muscular, fl exibilidade e, apesar de não ser uma característica motora, a composição corporal, pois começava nesta época a surgir a preocupação com a obesidade.

Os anos 80 marcaram, também, um período de transição do foco da aptidão física (o produto) para a atividade física (o processo). Estudos epidemiológicos, como o clássico de PAFFENBARGER JUNIOR, HYDE, WING e HSIEH (1986), e de BLAIR, KOHL III, PAFFENBARGER JUNIOR, CLARK, KOOPER e GIBBONS (1989) começaram a mostrar claramente a importância de ser ativo, não necessariamente ter altos níveis de aptidão física (algo inatingível para uma significativa parcela da população). A Educação Física começava a utilizar os conhecimentos e as evidências epidemiológicas em suas práticas, e sua vinculação com as questões de saúde pública (e de promoção da saúde) foi fortalecida.

Já no início dos anos 90 a atividade física foi definida como uma das prioridades da pesquisa em saúde pública e a inatividade física passou a ser considerada uma fator de risco primário e independente para doenças cardiovasculares pela American Heart Association - AHA (FLETCHER, BLAIR, BLUMENTHAL, CASPERSEN, CHAITMAN, EPSTEIN, FALLS, FROELICHER, FROELICHER & PINA, 1992), despertando um interesse crescente e multidisciplinar na pesquisa em atividade física e saúde. Sucederam-se recomendações e pesquisas populacionais sobre os benefícios e associações da atividade física com diversas doenças crônicas não transmissíveis, como o câncer, o diabetes, a hipertensão, a osteoporose e, naturalmente a obesidade, causa e consequência de mudanças no mundo contemporâneo. Foi a era de ouro dos estudos sobre medidas da atividade física - no Brasil foi publicado o primeiro artigo de revisão sobre o assunto (NAHAS, 1996). 

O novo milênio trouxe também uma nova agenda para a pesquisa em atividade física e saúde e, finalmente, a Educação Física passou a considerar mais seriamente seu engajamento nessas questões. O foco passou para as questões que predispõem ou que dificultam as mudanças de hábitos, e os estudos de intervenção ganharam grande destaque. Diversos jovens pesquisadores brasileiros da área de Educação Física buscaram na área de saúde pública os conhecimentos da epidemiologia e os têm aplicado de forma efetiva nos temas que interessam diretamente à Educação Física. Estudos mais qualificados, com melhor base teórica e abordagens metodológicas apropriadas para pesquisas populacionais têm contribuído significativamente para o crescimento da pesquisa em atividade física e saúde no Brasil. Estudos de intervenção, avaliando a efetividade de ações e programas de promoção de comportamentos saudáveis, em particular da atividade física e hábitos alimentares, estão sendo publicados e podem servir como base para a formulação das políticas públicas.

Os últimos anos posso afirmar que houve um grande crescimento no número de publicações em atividade física e saúde, inclusive no Brasil. Quando falamos sobre a avaliação física em Pernambuco, vejo a ciência cada vez mais crescendo no Estado. Porém em um contexto geral, em nosso país, entretanto, a qualidade da produção científica nesta área ainda precisa melhorar - assim como em todas as demais áreas relacionadas à Educação Física.

Grande abraço a todos

Prof. David Haluli



BIBLIOGRAFIA
  • Fernandes Filho, J. A Prática da Avaliação Física: testes e medidas e avaliação física em escolares, atletas e academias de ginástica. 2ª Ed. rev. 2003. Rio de Janeiro: Shape.
  • Tritschler, K. Medida e Avaliação em Educação Física e Esportes de Barrow e McGee. Tradução da 5ª ed. original de Márcia Greguol; revista científica, Roberto Fernandes da Cunha. 2003. Barueri: Manole.
  • Nahas, M.V. Um pouco da historia da Avaliação Física no Brasil. Rev. bras. Educ. Fís. Esporte, São Paulo, v.24, n.1, p.135-48, jan./mar. 2010 

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